Zen Peacemaker – em Português

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Os Três Princípios dos Zen Peacemakers

Não-saber – Plena Presença – Agir

Bernie Glassman sobre os Três Preceitos Puros

 “Dogen Zenji diz do primeiro preceito puro: “Cessar o mal é o lugar onde habitam as leis e regras de todos os budas”. Este lugar é o estado de não-dualidade, de não-conhecimento e não-separação. O Sexto Ancestral do Zen define Zazen como o estado de espírito no qual não há separação entre sujeito e objeto – nenhum lugar entre você e eu, entre acima e abaixo, certo e errado. Por isso também podemos chamar este preceito de “Retorno à Unidade”.

 É um lugar muito difícil de se estar, este lugar onde não sabemos o que está certo e o que está errado. É o lugar do simples ser, da própria vida. Quantos de nós podemos dizer que estamos abertos a todos os caminhos de todas as vidas? Quantos de nós podemos dizer que não temos a resposta? Quantos de nós podemos dizer que todos os caminhos que estão sendo apresentados são os caminhos certos?

A questão para mim é: que formas podemos criar na sociedade moderna que serão propícias a ver a unicidade da vida? Quais são as formas que nos facilitarão a vivência desse estado de não-dualidade?

 O Zen é uma prática que nos impulsiona a perceber o que é. Para mim, o zazen é uma forma de dar testemunho da vida, de dar testemunho da eliminação da negação da unicidade da nossa vida. Como seres humanos, cada um de nós está negando algo. Há certos aspectos da vida com os quais não queremos lidar, geralmente porque temos medo deles. Às vezes é a própria sociedade que está em negação.

 Zazen nos permite dar testemunho de toda a vida. Para mim, essa é a essência do segundo preceito puro, fazer o bem. Dogen diz: “Fazer o bem, este é o Dharma, a suprema iluminação. este é o caminho de todos os seres”.

 Dar testemunho das coisas que estamos negando ou que a sociedade está negando, estar presentes nos aspectos da realidade com os quais não queremos lidar – este é o segundo preceito. Quando damos testemunho, nos abrimos para o que é, de fato aprendemos. As coisas que estamos negando nos ensinam. Não vamos até elas para ensiná-las. Quando podemos ouvir, quando podemos dar testemunho, elas nos ensinam.

 Para mim, o florescimento do zazen é o terceiro preceito puro, fazer o bem aos outros. Dogen diz: “Isto é transcender o profano e estar além do sagrado. Isto é libertar a si mesmo e aos outros”.

 De que adianta se nos tornamos mais santos? Para quê? A questão é servir, ofertar, ser a oferenda. De si mesmo nasce o fruto. Portanto, não temos que nos preocupar com o que fazer. Se cessarmos o mal, se nos tornarmos esse estado de incognoscível, se nos tornarmos zazen, a oferenda surgirá. O fruto nascerá.

 A questão sempre é: como trazemos nosso Zen para nossa vida? Mas o Zen é a vida. O que há para trazer? E para quê? A questão é ver a vida como o campo da Prática. Cada aspecto da nossa vida tem que se tornar a Prática.

 Fui treinado em um modelo monástico tradicional cujas formas são condutivas ao estado de não-saber. A questão para mim é: que formas podemos criar na sociedade moderna que serão conducentes a ver a Unidade de toda a Vida? Quais são as formas que nos facilitarão a vivência desse estado de não-dualidade? Quase tudo o que fizermos provocará um pensamento mais dualista. Como levar a nós mesmos, nossos irmãos e nossas irmãs a um estado de não-dualidade? Essa é a questão. Esse é o koan.”

(Adaptado de uma Palestra do Darmma de Roshi Bernie Tetsugen Glassman, publicada na Revista Shambhala Sun, Maio.2013)


Atividades

Conselho (Council)

O Caminho do Conselho é uma prática central dos Zen Peacemakers, juntamente com a meditação, os Três Princípios e a ação social. É uma prática básica em nossos retiros de Plena Presença (Bearing Witness).

Council, como é referido de forma abreviada, é uma prática moderna derivada das tradições indígenas, pricipalmente dos nativos norte-americanos, e desenvolvida pela Fundação Ojai.

O Círculo convida os indivíduos a se reunirem em um espaço dedicado e sagrado, a se sintonizarem com a verdade pessoal e coletiva, e com a terra e a natureza, que também participam do Círculo. O Círculo é conduzido usando um conjunto de orientações, um Centro que simboliza a sacralidade e um “objeto-da-fala”, que é passado para indicar um único orador. Com estas formas, o Conselho aprimora nossas práticas de escuta profunda, dando testemunho e empatia. O Conselho foca nossa intenção e energia nas histórias, valores, medos e aspirações comuns que nos tornam humanos; nos lembra que somos mais semelhantes do que diferentes. Mais importante ainda, o Conselho é um poderoso recipiente para vivenciar os Três Princípios com as outras pessoas, entrando no momento do círculo pelo Não-saber, pela Presença Plena de si mesmo e dos outros, e da Ação, relacionando-nos a partir do coração.

As Intenções do Conselho são:

1. Ao ouvir, ouça com o coração, sem analisar, concordar ou discordar;
2. Ao falar, fale com o coração, pronunciando o que está vivo neste momento; o silêncio também é bem-vindo;
3. Seja objetivo ao expressar-se, indo à essência do que precisa ser falado;
4. Seja espontâneo, confiando no que se apresenta no momento, ao invés de ensaiar ou pensar no que deve ser dito;
5. Confidencialidade, em profundo respeito à privacidade das pessoas e à transitoriedade do momento, os participantes são encorajados a não desenvolverem com outros participantes aspectos que surgiram durante o Conselho, e a não compartilharem seu conteúdo específico com outros.

Estas diretrizes não são regras. São práticas, convidando-nos a apreciar a transitoriedade do momento, a fé em nós mesmos e nos outros. Cada conselho é aberto por uma invocação – os participantes convidam aquilo que gostariam de fazer presente, invocam um estado de espírito, ou outras presenças -, e encerra-se com uma dedicação ou oração. O Conselho tem sido evocado ao redor do mundo e durante todos os retiros Zen Peacemakers, Retiros de rua e imersões na realidade da Vida.


Dia de Reflexão

Uma vez por mês (perto da lua cheia) nos reunimos para um Dia de Reflexão. Esta prática nos dá a chance de avaliar e refletir sobre nossas vidas como ferramentas para a construção da paz. O evento começa com um momento de meditação silenciosa, seguido de uma Liturgia específica e termina com um Círculo do Conselho. O Círculo nos proporciona um recipiente seguro, no qual podemos compartilhar nossa experiência e insights que vieram com a reflexão sobre o mês passado. 


Retiros de Plena Presença

Retiros de Rua – Os retiros de rua têm sido uma prática central dos Zen Peacemakers desde 1991, quando Roshi Bernie Glassman liderou o primeiro nas ruas do Bowery, em Nova York. Desde então, eles têm sido realizados em muitas outras cidades do mundo.

Nós vamos para as ruas sem dinheiro e apenas com as roupas do corpo. Comemos em cozinhas comunitárias e mendigamos por dinheiro ou comida em momentos em que as cozinhas comunitária não são disponíveis. Dormimos ao ar livre ou em casas abandonadas, mas normalmente não utilizamos os abrigos assistenciais, pois usualmente não há camas suficientes. Não dizemos que somos moradores da rua, mas simplesmente que estamos vivendo nas ruas por vários dias, contando com a generosidade das ruas para cuidar de nós. Ainda que às vezes nos dividamos em grupos menores, nos reunimos várias vezes ao dia para compartilhar nossas experiências em uma prática do Conselho e recitar a Liturgia dos “Portais do Doce Néctar”, que se trata de nutrir os “espíritos famintos”. Nós também passamos nossas noites juntos, em grupo.

Esta é uma prática poderosa do Não-saber e de Plena Presença, onde a vida imprevisível nas ruas é o principal professor. É uma tempo de intimidade radical, um mergulho em um lado da vida para o qual raramente olhamos.


Auschwitz-Birkenau – O Retiro de Plena Presença nos Campos de Auschwitz-Birkenau foi desenvolvido em 1996 pelo ativista social e professor de Zen, Roshi Bernie Glassman. Roshi Glassman já havia visitado Auschwitz e experienciado a visão de milhares de almas presas ali em necessidade de cura, lembrança e libertação. Ele prometeu voltar a Auschwitz para fazer esse trabalho de cura. Em novembro de 1996, Bernie Glassman e a Comunidade Zen Peacemaker levaram para Auschwitz-Birkenau, em Oswiecim, Polônia, um grupo internacional de mais de 150 Peacemakers, para o primeiro Retiro de Plena Presença.

Os participantes incluíam sobreviventes de Auschwitz e de outros campos de concentração, filhos de sobreviventes e filhos de militares nazistas que trabalhavam nos Campos. Muitos dos participantes haviam perdido familiares, alguns suas famílias inteiras, em Auschwitz-Birkenau e em outros campos. Os participantes eram de muitos países, incluindo Polônia e Alemanha, Canadá, Inglaterra, França, Israel, Itália, Holanda e Estados Unidos. Entre os participantes estavam budistas, cristãos, judeus e muçulmanos, assim como pessoas de orientação secular. Nos últimos anos um ancião nativo americano da Nação Lakota Ogalala em Pine Ridge, Dakota do Sul, participou do retiro. Desde 1996, centenas de participantes do retiro anual (Bearing Witness Retreat) em Auschwitz-Birkenau, na Polônia, têm descoberto uma profunda cura pessoal e transformação a serviço da criação de um mundo mais justo e pacífico. A Comunidade Peacemaker na Polônia (Polska Wspolnota Pokoju) é a anfitriã e organizadora local do retiro.

( Fonte – https://engagedmindfulness.org/programs/bearing-witness-auschwitz/)